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Gênesis 1 (parte 1): Cosmologia e Identidade

Atualizado: 7 de nov. de 2022


Gênesis 1-11 é usualmente referido como a história primitiva – é a história das origens. No Antigo Testamento, a narrativa das origens tinha um papel essencial de estabelecer para os Israelitas o seu senso de identidade. Era necessário dizer quem eles eram e de onde eles vieram. Sem a história de um começo, os seres humanos enfrentam o caos. Temos a necessidade intrínseca de sentido, temos uma vontade de sentido.


Há uma relação teológica entre a fé na criação e a tradição da obra benéfica de Yahweh, que é, por excelência, a sua ação na história, que se inscreve no tempo. A história da criação integra o conjunto teológico da história da salvação. É uma preparação, um prelúdio para a ação salvadora de Deus. Deus é o criador e o redentor de Israel. Isaías 44:24 apresenta Yahweh como “teu redentor e teu criador”. A criação e a redenção quase coincidem e são consideradas como um ato dramático da obra benéfica de Deus.


Gênesis 1 nos traz muitas das suposições teológicas do Mundo Antigo. Reflete e nos desafia a pressupormos a natureza de Deus, do mundo e da humanidade.





Gênesis 1 nos provê um começo brilhante no Antigo Testamento, combinando o estilo narrativo com a poesia de um hino. Sua cuidadosa estrutura, com expressões chaves trabalham juntos para criar um efeito poderoso sobre o ouvinte. O objetivo do narrador de Gênesis é fazer com que o ouvinte experimente algo da Majestade de Deus, com o objetivo de definir o enredo que se completa nos versículos 26-28. Este enredo pode ser separado em vários temas:

- Os seres humanos são criados na imagem e semelhança de Deus.

- Eles devem multiplicar-se e encher a Terra.

- Eles devem subjugar e ter dominação sobre a Terra e todas as criaturas vivas.


A criação se desdobra em 6 dias, o que é balanceado em 3 pares, existindo uma correspondência que liga o Dia 1 com o Dia 4, o Dia 2 com o Dia 5, e o Dia 3 com o Dia 6.





Pontos a serem observados:

1) Há dois polos – Céu (C) e Terra (T); a criação se move do céu para terra, e acaba com um fechamento com a criação da humanidade

2) Os primeiros três dias (Dias 1 - 3) mostram a criação em suas generalidades, enquanto os outros três dias (Dia 4 – 6) apresenta aqueles com suas características que envolvem diretamente sobre o habitat humano.

3) O vocabulário sobre a criação do homem pode nos levar a uma interpretação equivocada. O uso das palavras como “imagem e semelhança” parece sugerir que ao homem foi dado a tarefa de governar sobre a criação como rei. No entanto, esta tarefa é na verdade mais sobre ser cuidadoso como um mordomo, um administrador da Terra – administrar os recursos da terra com responsabilidade –“.


O homem foi criado no sexto dia. A humanidade é designada pela palavra masculina ‘adam, que inclui macho e fêmea, é uma palavra hebraica genérica para ser humano. O homem foi feito do pó (adamah) e animado pelo fôlego de vida, o fôlego de Deus.


O primeiro capítulo de Gênesis traz a história do mundo no sentido cheio de significado de um relatório sobre o surgimento das gerações (toldoth) do homem que descendem de Adão para dar sentido à história de Abraão e a identidade do povo de Israel. A palavra toldoth (geração) se aplica a todo o curso da história israelita, e tem a intenção de trazer a idéia de identidade: “De onde eu vim? De onde nós viemos?”

1) A primeira humanidade de Adão a Noé

2) A segunda humanidade de Noé a Abraão;

3) A sucessão dos patriarcas

4) As tribos da confederação

5) Os líderes dos clãs do reino

6) Os exilados retornados


Os registros são formalizados, na medida em que começam com a expressão: “Eis a descendência [toldoth] de...” (Gn 6:9; 10:1; 11:10). Vemos isso formalizado no Registro de Adão que começa: “Eis o livro [sepher] da descendência [toldoth] de Adão” (Gn 5:1).


Em Gênesis 2:4, vemos a palavra toldoth novamente: “Esta é a descendência [toldoth] do céu e da terra”. Esta passagem dá início a um relato da criação. A palavra toldoth que é um substantivo contém o verbo yalad, “gerar”, “dar à luz”, e, assim, refere-se não ao termo criação, mas especificamente “procriação”. Na ação criadora de Deus é usado o verbo o verbo “bârâ”, que é uma noção de criação por uma palavra imperativa, trazendo a ideia de ausência total do esforço na criação divina. Basta uma breve proclamação da vontade de Yahweh para que o mundo seja chamado à existência.


Como produto da palavra criadora, o mundo é totalmente separado de Deus. O mundo nada apresenta da essência divina. Só a palavra estabelece continuidade entre Deus e sua obra. O mundo é chamado à existência pela vontade livre de Deus.


O relato da criação em Gênesis 2:4-7 revela uma conexão profunda entre criação e procriação, pois descreve uma sequência de gerações, uma geração anterior que procria a seguinte com a assistência criadora de Yahweh. A própria criação coopera com Ele no processo de criação.


“Esta é a descendência [toldoth] do céu e da terra, quando eles foram criados: No dia em que Yahweh-Elohim fez o céu e a terra, não havia ainda nenhum arbusto nos campos sobre a terra, e nenhuma planta nos campos sobre a terra, e nenhuma planta nos campos havia ainda brotado, pois Yahweh-Elohim não havia feito chover sobre a terra e não havia Adam [homem, Adão] para cultivar o adamah [solo].


Mas da Terra subiu um ad [pronunciado “ed”, neblina] e regou toda a superfície do adamah,

E Yahweh-Elohim formou adam do pó do adamah, e soprou em suas narinas o sopro da vida,

E Adam tornou-se um ser vivo.


Nenhuma tradução moderna pode transmitir a sugestão do texto hebraico de que a primeira geração da criação, ou seja, o céu e a terra tornaram-se procriadora e cooperaram com Yahweh na obra da criação. Da fertilização de ad e adamah surge, sob a ação formadora e animadora de Yahweh, a segunda geração [toldoth] de Adam, com o duplo sentido de homem e Adão.

Vemos no Gênesis que a toldoth [geração, descendência] de Adão está em continuidade com a toldoth do céu e da terra. Gênesis traz a ideia de que os significados de criação e procriação se fundem num processo cooperativo; a ordem do ser deve derivar da iniciativa criadora de Deus e da resposta procriadora da criação. A Palavra de Deus estabelece a continuidade entre Deus e sua obra. Deus não está na sua obra, mas Sua palavra sustenta sua criação sobre o abismo. A noite é um vestígio das trevas, agora limitada por uma lei benéfica, o dia que nasce de uma luz primordial.


As plantas tem para com Deus uma relação indireta, pois nascem da terra à qual Deus transmitiu o poder de colaborar na criação. Também os animais estão diretamente dependentes da terra, mas recebem uma bênção e uma ordem que os torna fecundos.


O Adam que foi criado por Deus com a resposta procriadora de ad e adamah continua a gerar a si mesmo à semelhança de Deus – ou seja, o meio humano que deve cooperar na geração da ordem do ser por meio da submissão procriadora à vontade criadora de Deus. Na obra da criação vemos o mundo inteiro se submeter ao homem, sendo ele considerado o ponto culminante de toda criação. Com a criação do homem, este se torna o centro em torno do qual Deus distribui suas ações. O homem está no degrau mais alto da criação e é imediatamente colocado junto de Deus e é no homem que o mundo, na sua dependência, encontra perfeita intimidade com o Deus criador.


A criação do homem é um ato intimo de Deus. A vida que o homem tem em si não é parte integrante dele. Ela advém de um sopro, um fôlego externo a ele. Gênesis nos ensina que a vida que há no homem é totalmente dependente da ação de Deus.


No entanto, a criação divina da ordem não termina no Homem. A obra continua pelas instruções dadas ao Adam que requer a sua obediência cooperadora. E a instrução básica, que assegura a sua existência continuada, é, portanto “Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra!”, ordenado por Deus a Adão (Gn. 1:28) e posteriormente a Noé (Gn 9:1). Mas essas instruções não seriam suficientes, pois como a experiência mostrou, a humanidade não sagrada cresceu, pois o homem por um ato de transgressão trouxe maldição à criação.


Gênesis 1 até o capítulo 11 nos mostra a identidade do homem que dá o sentido da existência histórica de Israel. E o processo da história do mundo alcança o seu nível mais elevado com a escolha divina de indivíduos (Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Moisés) e grupos (Israel) para instrução especial e a resposta confiante dos indivíduos e grupos escolhidos. A relação entre Deus e o homem é formalizada pelas alianças.


Referência bibliográficas:

RAD, Gerhard Von. Teologia do Antigo Testamento. vol. 1 Aste, São Paulo, 1973

VOEGELIN, Eric. Ordem e História: Israel e a revelação. vol. 1. Edições Loyola, São Paulo, 2009

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