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Gênesis 11 - Babel - Titanismo e Confusão



A história de Torre de Babel se insere na sequência da queda. É um relato que se encaixa na história da rivalidade do homem para com Deus. Os descendentes de Noé eram uma única humanidade, que falava uma só língua (11:1). Os homens se estabeleceram na planície de Senaar (Babilônia) e conceberam o plano de construir uma cidade e uma torre que chegaria até ao céu, a fim de fazer um nome para si e não se dispersar pela ampla terra. (11:4).


Yahweh, então, desce até a terra e observa os desígnios do homem e decide confundi-los como punição. (11:5-9). A história de Babel mostra de forma significativa que o homem, como uma criatura à semelhança de Deus, é movido pelo pecado que o impulsiona a querer ser como Deus e se fazer grande. Em razão do pecado, o homem tem dificuldades para encontrar o equilíbrio certo de sua existência e é irresistivelmente inclinado a buscar a divindade da qual é apenas uma imagem.


No capítulo 10 e 11 do livro de Gênesis, observa-se que os povos provêm de grandes migrações que, misteriosamente, se põem em grande movimento de massa. A massa, por ser anônima, quer vencer tal condição e fazer algo grandioso. Babel se mostra, primeiramente, como um desejo coletivo de vencer o anonimato e inserir-se na história como uma grande potência cultural. A humanidade aqui organizada não se estabelece para seguir sendo o que era, mas, sim, se preocupa em reforçar sua união e alcançar a glória: “Façamos grande o nosso nome”. E, assim, começam edificar uma grande cidade e erigir uma torre, produto

monumental da arquitetura.


A obra coletiva do homem dá então origem às cidades, signo da vontade defensiva. É comum no mundo antigo cidades fortificadas. A torre construída dentro da cidade é signo do apetite por glória. A expressão bíblica de que a torre tinha como objetivo alcançar o céu, não é mais que uma expressão destinada a traduzir a excepcional magnitude do edifício. Isso demonstra, dentro das possibilidades humanas, o desejo de conquistar a fama e a glória.


A história de Babel vai então se apresentando a nós de forma sucinta. É o que atualmente chamamos de civilização, que no relato bíblico se revela como rebelião contra Deus. No verso 06 do capítulo 11 está presente o titanismo. Ele marca profundamente tal relato.


O titanismo se manifesta na organização das massas humanas. Deus percebe que o caminho dos homens desembocará numa concentração de energia não para o bem, mas para que cometam toda sorte de profanação e desaforos para com ele. A confusão das línguas é ato punitivo, mas também ato preventivo de Deus para não castigar a humanidade com maior rigor.


Nos versos 8 e 9, Deus, então, fragmenta a humanidade, confundido as línguas para que haja confusão. A separação aqui será inevitável. Babel, no Antigo Testamento tem um significado peculiar. Originariamente, na Babilônia, Babel significa “porta dos deuses”. A torre então tem um caráter místico e religioso. Para o Gênesis, esse empreendimento humano significa “confusão”.


Babel que é construída para fama e glória. É uma forma de os homens se unirem e criarem uma fortificação de defesa, visando ser uma porta para os deuses. Ela esconde um significado mais profundo: o desejo de glória, que é, na verdade, rebelião contra o Altíssimo. Na linguagem bíblica Babilônia é símbolo do orgulho pecaminoso. Vemos isso expresso em Isaías 13:19, 14:13, Jeremias 51:6ss e também na tradição apocalíptica.


Babel nos ensina que a reunião dos homens impulsionada pelo esforço de alcançar fama é seguida pelo juízo de Deus. Eles, que estavam preocupados em unir-se e concentrar-se em massa, vivem agora dispersos em confusão.


A história de Babel é um resumo do que viria a ser a história e a cultura humanas. A multiplicidade dos povos não mostra somente a variedade do poder criador de Deus, senão um juízo sobre as nações e sobre todo projeto coletivo das massas que buscam glória e fama. A confusão do mundo das nações até ainda hoje existente é fruto do castigo e da rebelião do homem contra Deus.


A ação de Deus contra o projeto titânico dos homens os lança de volta ao entendimento de sua condição precária e fraca. A diversidade de línguas e a confusão entre os homens são consequências do desejo de rivalizar com o céu. A história de Babel nos ensina que o desejo de unidade de qualquer projeto humano (Nações Unidas) é um sonho que sempre se torna pesadelo.


Babel é a última pedra da história das origens. Do Gênesis 1-11, vemos um crescimento massivo do pecado. Se observarmos, desde o início todo pecado é seguido de castigo, perdão e salvação. Adão e Eva, após a queda, são cobertos e protegidos por Deus. Caim que comete um pecado terrível, o assassinato de seu irmão, é também envolto pela proteção divina para que ninguém destrua sua vida. A humanidade da época de Noé chega à uma perversão sem conta, é condenada ao aniquilamento pelo dilúvio, mas é resgatado pela obra salvadora de Deus protegidos pela arca.


Nos juízos de Deus sobre uma humanidade vemos o contraponto que se manifesta sempre na ação em graça, perdão e salvação. As palavras de Paulo aqui ganham sentido interpretativo – onde abundou o pecado, superabundou a graça (Rm. 5:20). Estranhamente, no entanto, a história da torre de Babel se conclui em juízo de Deus sobre a humanidade e sobre as nações, sem manifestação imediata de perdão. O fim da história de Babel nos traz a questão: Deus teria perdido a paciência com os homens e os abandonado?


Entretanto, o relato da torre de Babel ganha sentido quando olhamos a história de Abraão. Gênesis12:1-3 então traz uma mudança de perspectiva. A história das origens é interrompida pela história da salvação. A história humana que até então estava sendo vista de forma universal, tratando do mundo e da humanidade, é abruptamente esquecida e concentrada sobre um único homem.


Antes tínhamos questões humanas de alcance geral: a criação do homem, sua natureza, a mulher, o pecado, o sofrimento, a humanidade, as nações. Agora temos um homem que retirado dos seios das grandes nações é chamado para andar e sonhar um projeto que abençoará todas as famílias da Terra (Gn. 12:3). Seu nome será conhecido não por uma obra grandiosa de suas mãos, mas por ter aceitado ao chamado de Deus e se submetido à sua Aliança.


A história de Abraão não é apenas a história de um homem, mas se torna a história de um homem que participa da história de Deus, que é a história da salvação que se consumará na pessoa de Jesus Cristo e atingirá todo aquele que Nele crer.


Referências: VOEGELIN, Eric.Ordem e História: Israel e a revelação. Vol. 1. Edições Loyola,São Paulo, p. 64

RAD, G. Von.El libro de Genesis.2. Ed. Editora Sígueme , Salamanca, 1982, p. 181

RAD, G. Von.El libro de Genesis.2. Ed. Editora Sígueme , Salamanca, 1982, p. 183

RAD, G. Von.El libro de Genesis.2. Ed. Editora Sígueme , Salamanca, 1982, p. 185


Reino Unido, junho de 2014.

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